Isso faz parte da natureza humana. Todos falseiam a realidade, enfeitam um pouco uma situação que não teve tanto glamour, colocam passarinho nas coisas.
Sabe o que é passarinho? Aprendi com o Mario Prata. Passarinho é a enfeitadinha básica que um escritor dá em um fato verídico que está descrevendo. Não é mentira. É só uma cereja sobre o bolo, uma lapidada nos fatos que, comme il fault, são nus e crus. É só um passarinho!

Ande pelo Orkut. Corto meu braço direito se metade das fotos que estão nos perfis não são retocadas de uma foto ou de outra. Barrigas indecentes são abrandadas, olheiras são clareadas e narizes dignos do Pinóquio viram delicados pedaços de sonho desenhados à mão. Um mimo.
Tem gente mais descarada. Faz artesanato fotográfico e se insere em paisagens belíssimas, em navios e pontos turísticos que nem ela sabe direito onde ficam. Dá pra acreditar numa mulher chamada Borcelina, de Pindamonhangaba, que tem fotos com Paris Hilton, Lula, Mick Jagger, Angelina Jolie e em praias de águas verdíssimas das Ilhas Maurício? É grupo!
Em compensação, posso dizer que conheço mais de Londres do que muitos cidadãos britânicos. Me jogo no Google e aprendo mais a cada dia. Acho que, se quisesse, poderia enganar muita gente dizendo que passei uns tempos por lá, hospedado na casa de uma linda suburbana em Thamesmead.

Mas tenho escrúpulos. E não consigo mandá-los às favas, como a personagem do Juca de Oliveira. Saco!
Conheço muito de literatura beat. Adoro Kerouac sem ter lido On The Road, vejam só. Nunca tive grana pra comprar pela Internet e não tem nas bibliotecas a que tenho acesso. Mas já li tanto sobre ele, já vi centenas de discussões e debates sobre ele no rádio e na TV que hoje nem sei se saberei apreciar mais a descoberta do colocar o pé na estrada.

Isso é realmente conhecer? Eu não sei. Mas é assim que é.
Sem passarinho.




















