SOU EXPERT EM COISAS QUE NUNCA VI

quinta-feira, 24 de abril de 2008 às 00:09
Todo mundo mente.

Isso faz parte da natureza humana. Todos falseiam a realidade, enfeitam um pouco uma situação que não teve tanto glamour, colocam passarinho nas coisas.

Sabe o que é passarinho? Aprendi com o Mario Prata. Passarinho é a enfeitadinha básica que um escritor dá em um fato verídico que está descrevendo. Não é mentira. É só uma cereja sobre o bolo, uma lapidada nos fatos que, comme il fault, são nus e crus. É só um passarinho!




A Internet e a facilidade de acesso à informação que a tecnologia nos dá nos dias que correm têm feito o “fator passarinho” crescer vertiginosamente. Duvida?

Ande pelo Orkut. Corto meu braço direito se metade das fotos que estão nos perfis não são retocadas de uma foto ou de outra. Barrigas indecentes são abrandadas, olheiras são clareadas e narizes dignos do Pinóquio viram delicados pedaços de sonho desenhados à mão. Um mimo.

Tem gente mais descarada. Faz artesanato fotográfico e se insere em paisagens belíssimas, em navios e pontos turísticos que nem ela sabe direito onde ficam. Dá pra acreditar numa mulher chamada Borcelina, de Pindamonhangaba, que tem fotos com Paris Hilton, Lula, Mick Jagger, Angelina Jolie e em praias de águas verdíssimas das Ilhas Maurício? É grupo!


Isso eu não faço. O máximo que fiz foi passar um filtro avermelhado na minha foto pra que o brilho da minha testa oleosa não cegasse os visitantes de minha página. Mas o resto é meu mesmo, pode acreditar.

Em compensação, posso dizer que conheço mais de Londres do que muitos cidadãos britânicos. Me jogo no Google e aprendo mais a cada dia. Acho que, se quisesse, poderia enganar muita gente dizendo que passei uns tempos por lá, hospedado na casa de uma linda suburbana em Thamesmead.






Mas tenho escrúpulos. E não consigo mandá-los às favas, como a personagem do Juca de Oliveira. Saco!

Conheço muito de literatura beat. Adoro Kerouac sem ter lido On The Road, vejam só. Nunca tive grana pra comprar pela Internet e não tem nas bibliotecas a que tenho acesso. Mas já li tanto sobre ele, já vi centenas de discussões e debates sobre ele no rádio e na TV que hoje nem sei se saberei apreciar mais a descoberta do colocar o pé na estrada.



Notem que não estou dizendo que finjo conhecer Londres e Kerouac. Os conheço de fato. Mas de um jeito novo, não previsto pela gramática. Os conheço via Google.

Isso é realmente conhecer? Eu não sei. Mas é assim que é.

Sem passarinho.

UM SONHO GELADO E GASOSO

quarta-feira, 23 de abril de 2008 às 22:33



Amo refrigerante.

Estou falando de amor. Não estou dizendo que gosto nem que eles me agradam o paladar. É algo maior. É amor mesmo. Se fosse paixão, o sentimento teria arrefecido no final da adolescência, como quase tudo arrefece.

Mas não. Ele resistiu ao tempo. É amor mesmo e fim de papo.

Um líquido fútil, sem nenhum nutriente e na maior parte das vezes, artificial. Engorda, dá celulite, estraga o esmalte dos dentes, expande o estômago, dá gases, enfim. Tudo de ruim. Se você tem juízo, vive à base de água e sucos naturais sem conservantes.

Mas juízo é algo raro nesse país. Sou brasileiro e não desisto nunca.




Adoro abrir o refri e ouvir aquele chiadinho refrescante invadir o ambiente. E o barulho do líquido sendo colocado dentro do copo, então? Orgasmático. Esse prazer era muito maior na era de ouro dos refrigerantes em garrafa de vidro. Aquilo sim que era ritual.

Ir ao boteco do seu Joaquim buscar uma garrafa de um litro. Sim, uma garrafa de um litro dava para a família inteira almoçar, vejam só!



A escolha era restrita, não havia as centenas de opções de hoje. Coca-Cola quando tínhamos visita ou quando alguém estava passando mal do estômago, santo remédio! Fanta quando estava em promoção. Crush para agradar mamãe. Pepsi-Cola para me agradar, já que sempre fui fanático pelo sabor docinho do refri de logo azul e vermelho.

Mirinda quando tinha, que era quase nunca. Sempre estava em falta, assim como as Fantas uva e limão. Gini, que tinha gosto de lima, segundo meu pai. Baré-Cola, quando não se tinha dinheiro. Guaraná Taí quando se queria sofrer. Guaraná Antarctica quando se queria sonhar.

Abria-se a garrafa com cerimônia, com um abridor de madeira muito bonito que tenho até hoje. Menos a minha sacrossanta Pepsi, que era a única com tampa de rosca, moderna como seus comerciais com a Tina Turner e o Michael Jackson. O sabor do refrigerante em garrafa de vidro era outro... Ainda é outro, apesar da invasão dos PET.

E as quantidades? Outro dia comprei no Extra uma Pepsi de 3,3LT. Imaginem isso nos anos 80! O mundo mudou. Em alguns aspectos para pior. Mas o refrigerante permanece.




Refrigerante não serve só pra matar a sede e tingir a língua de roxo, como acontece quando se toma Grapette. Refrigerante é cultura. É resistência cultural, inclusive. O Guaraná Jesus, por exemplo. Símbolo do Maranhão, ele é prova de que o brasileiro é arraigado às suas tradições. Tanto é verdade que a Coca-Cola se rendeu ao líquido cor-de-rosa e o adquiriu. E o Mate Couro, inusitado refrigerante de chá das Minas Gerais? Luta pelas raízes!

Li em algum lugar que na Europa a Mirinda é fabricada em sabores exóticos como banana, grapefruit e blueberry. Enchi a boca d’água.

Pesquiso sobre o assunto para preencher alguns momentos de ócio. O refrigerante me ajudou a ganhar barriga e alguma bagagem cultural de troco. Não ligo para os apelos nutricionais do suco de clorofila enquanto houver Pepsi gelada na minha Bosch.



Ou eles me matam, ou tomo todos eles antes.


ELES NÃO OUVEM RINGO STARR

segunda-feira, 21 de abril de 2008 às 17:18



Era só mais um restaurante de beira de estrada. Nada mais, nada menos. O mesmo balcão de fórmica, os mesmos caminhoneiros gaúchos, as mesmas cuias de chimarrão e chapéus de palha penduradas em cabideiros. O mesmo café no bule, o mesmo espeto corrido, as mesmas músicas no serviço de som.

Eles não ouvem Ringo Starr.

Mas Cléo ouve. Alucinada, desesperadamente. Mas em casa.

Música de Liverpool não combinava com o interior do Paraná. Não há espaço para submarinos amarelos entre os Volvo e Scania sob o toldo preto e vermelho da Texaco. O MP3 mudou sua vida. Colocava Ringo se esgoelando num ouvido e no outro ouvia os pedidos e as cantadas dos clientes. Servia um e escutava elogios às suas ancas de outro. Uma dicotomia interessante.





Até uma fria noite de Domingo. Ele estacionou seu Fiat antigo, daqueles que abriam a porta ao contrário, e pediu filé à cavalo. Sem arroz, com batatas.

Sem arroz. Com batatas! Era um caminhoneiro diferente. E pobre, com um caminhão daqueles... Laranja, com ferrugem nas reentrâncias e sujeira nas saliências... Um Fiat! Imagine... E bife sem arroz!



Ele era bonito. Olhos cor de caramelo, cabelos cor de chocolate, sorriso cor de maçã. Apple. Ringo. Sim, ele lembrava Ringo. Não tinha os olhos azuis, mas comia bife com batatas, sem arroz. Mastigava de boca fechada. Sentia o paladar, engolia sem fazer barulho. De Fiat...

- E a moça, não vai ligar o som?

Ela ligou. Leonardo, Daniel, Chitãozinho & Xororó, o de sempre. Ele acenou com a cabeça.

- Tem nada melhor?

Ele queria mais. Saiu, foi à boléia. Ela atônita. Voltou com um CD em mãos. Ponta quebrada pelo manuseio, era inacreditável. Cléo riu. No Paraná, no interior, dirigindo aquela banheira velha...

- Coloca a número sete. É Harrison.

Ela abriu o Abbey Road que o caminhoneiro trouxe e os acordes do violão de Here Comes the Sun invadiram o restaurante quase vazio. Ouviram em silêncio o resto do disco. Ele comia e sorria em alguns trechos, como com o início de Golden Slumbers. Ela só respirava. E com dificuldade.




- Nunca toco isso aqui. Eles não ouvem Ringo Starr.
- Isso é Beatles.
- Dos Beatles eu gosto mais do Ringo.
- Que bom.
- Mas é nadar contra a corrente.
- E quem disse que a corrente sempre leva a gente a um porto seguro?

Houve cumplicidade no olhar. Ele alugou um box e tomou um banho. A esperou ao final do expediente e lhe mostrou sua boléia e as delícias que o sexo descompromissado reserva a um homem e uma mulher.

Foi embora.

Mas o restaurante nunca mais foi o mesmo. Cléo nunca mais foi a mesma.





Ele pode comprovar isso ao voltar lá meses depois. Cléo estava lá. Vestida como Madonna em sua fase country, dançando sobre o novo balcão, de madeira de lei. E no serviço de som, Ringo entoava Early 1970. Regional e nostálgico. Os caminhoneiros batiam palmas e a desejavam. Ele riu.



Fora inaugurado o estacionamento para submarinos.

NUM APARTAMENTO PERDIDO NA CIDADE...

domingo, 13 de abril de 2008 às 17:22


Domingo de muito sol em São Paulo.

Uma caminhada pelo Minhocão parecia-lhe perfeita para aquela tarde tropical, deslocada no mar de prédios e gente branca. Tomou um belo banho, escolheu um figurino adequado e pernas pra que te quero.

Entrou no elevador e conferiu-se no espelho. Camiseta branca, short preto com o distintivo do Santos, perna ainda marcada da queimadura conseguida no escapamento da moto. Estava bom assim.

Térreo, saguão, boa tarde ao porteiro e rua. Liberdade, vida saudável em meio a feia fumaça que invade a metrópole durante a semana. O sol bonito, o céu azul, as ruas vazias e Pink Floyd no MP3.

Acessou o elevado. Espantou-se com o número de gente que tivera a mesma idéia que ele naquela mesma tarde. Notou o casal gay com um carrinho de crianças, uma menina linda. Uma velhinha vendendo flores de papel crepom, só R$2,00. Another Brick in the Wall no último volume quando ele passou em frente à japonesa de cabelos verdes. São Paulo.

As pernas logo ficaram duras, meio que estranhando aquele exercício incomum nos últimos tempos. Comprou uma garrafinha de Gatorade. Enquanto bebia, passou em frente ao seu próprio prédio. Cinco metros o separavam de seu sofá preto de couro velho, da pilha de DVD’s que gravara e nunca vira, de sua vida harmoniosa com o gato Lúcio. Parou.

Olhou fixo para a janela do quarto e se imaginou deitado. Com alguém.

Precisava de amor, de sexo, de uma mulher que lhe amasse e que não tentasse mudar suas meias de lugar na cômoda. Que gostasse de gatos mesmo quando eles insistem em subir na prateleira de livros ou no monitor do computador. Que não se incomodasse com toalhas molhadas e que curtisse sexo no chuveiro.

O sol começou a arder.

Continuou e olhava sempre pra trás. Sempre perseguindo sua janela, sua cama, sua mulher ideal que não existia, provavelmente. Quando o prédio sumiu de sua vista, virou-se para caminhar como se deve, olhando pra frente.

Pensava em futebol, mais tarde teria jogo. Mas o Santos já está eliminado, não faz diferença. Teria de pagar a luz. E o condomínio, que não pagara mês passado. Pensou em ir ao teatro, em jantar num japonês. Pensou em voltar pra Piracicaba.

Não agüentava mais ser só um interiorano num apartamento perdido na cidade. Ao mesmo tempo, não agüentaria voltar para uma cidade que não tinha mais nada a ver com seu ritmo de vida, com suas expectativas com relação à profissão.

Não gostava de sair pra caminhar por causa desse turbilhão de pensamentos que lhe invadiam a mente. Acho que o sangue oxigenava o cérebro melhor e aí lhe vinham as idéias mais recônditas.



O suor começou a empapar seu rosto. Um cara jogando futebol com seus filhos. Uma gorda comendo pastel. Duas policiais femininas fazendo a ronda. Na janela de um prédio um maluco mostrando a bunda branca e murcha. A criançada ria e falava palavrões. Metrópole.

Exercício feito, MP3 sem pilha, era hora de ir embora. Passou num mercado e comprou uma Budweiser e uma latinha de castanhas. Já em casa, no sofá preto de couro velho, recuperava todas as calorias que gastara no Elevado Costa e Silva. Castanhas torradas e salgadinhas, tomava a long neck no bico e sonhava com a Patrícia Poeta, que lhe dava boa noite pela TV.

Dormiu chorando como um bebê. Um bebê interiorano, num apartamento perdido na cidade. Cheirando a cerveja, suor, lágrimas e vida urbana.


CACAU E CRIATIVIDADE

quinta-feira, 10 de abril de 2008 às 19:31


O Brasil está deixando de ser o país do arroz com feijão, do filé com fritas, da feijoada e do torresminho para, em muito breve, ser declarado o país da trufa de chocolate.

Essa é a nova mania nacional. Cacau e criatividade estão mudando o país.

Trufas de todos os tipos, tamanhos, pesos, densidades e texturas possíveis e imagináveis. Você pode comprar a trufa nossa de cada dia em qualquer boteco, padaria, vendedora de porta a porta, posto de gasolina, sinal de trânsito...

Quando eu trabalhei na Vésper, fiquei freguês de uma imigrante peruana muito simpática. Ilegal no país, ela defendia seu dinheirinho vendendo deliciosos pães de mel cobertos de chocolate ao leite. A gente sempre conversava em espanhol para que eu praticasse um pouco meus enferrujados conhecimentos. Era uma simpatia a vendedora de docinhos e fantasias. Um belo dia ela me aparece com um isopor cheio de trufas. Cadê os pães de mel?

- Pan de miel no hago más. Las trufas son deliciosas.

Tive vontade de ligar na hora pra imigração e denunciar aquela enganadora. Meus pães de mel honestos, com casquinha de chocolate bem fina, massa bem fofinha e recheio cremoso de doce de leite tinham virado um sonho de uma noite de verão, uma vaga lembrança de um sabor doce livre dos modismos.

Como adoro chocolate, óbvio que adoro trufas.

Hoje vivo cercado por trufeiras e trufeiros de toda espécie, cores e tamanhos. Minha sobrinha está fazendo trufas em casa para garantir independência econômica. A avó da minha aluna vende trufas de nozes, cereja, maracujá e côco. A padaria que freqüento (e que me vende fiado) vende trufas de capuccino que fazem sucesso.

Como toda moda alimentar que aporta em terras brasileiras, nossas trufas em sua maioria passam longe da receita tradicional. São bombons metidos a besta, chocolates com um recheio anabolizado altamente engordativo.



Se você tem fé em seus dotes culinários e quer entrar para a moda, derreta 500 gramas de chocolate em banho-maria, mesclando de preferência o chocolate ao leite com o meio amargo. Misture uma lata de creme de leite previamente aquecido, uma colher de mel, três colheres de conhaque e uma de margarina sem sal.


O creme de leite tem de ser de lata, entendeu? Nada de fazer economia porca. E o conhaque tem de ser de uma marca decente, não seja cretino! Guarde aquele conhaque de procedência duvidosa pra oferecer para seu cunhado alcoólatra.

Leve tudo à geladeira e aguarde duas horas. Vá jogar paciência, dê um banho no cachorro, faça alguma coisa!

Quando voltar, molde as bolinhas de massa com as mãos e coloque-as de novo na geladeira. Enquanto isso, você derrete mais 500 gramas de chocolate. Passe as suas bolinhas de massa gelada no chocolate derretido e quando a casquinha endurecer, você terá feito trufas de chocolate dignas de uma imigrante mal intencionada.



ELA ERA ASSIM

domingo, 6 de abril de 2008 às 01:33

Ela era doce. Seu cheiro morno, sua pele fresca, seus cabelos cor de âmbar, um sonho transformado em carne amorosa.

Ela era linda, linda como a chuva nos campos de Minas, como a queda d’água do Rio Parnaíba, como a lua mansa que ilumina a vida de quem ama. Seus olhos calmos transmitiam ondas sonoras que tocavam músicas dolentes nos ouvidos de quem não tivesse medo.

Ela era culta. Lia os clássicos ao som de Chopin, lia os contemporâneos mordendo uma maçã, lia gibi me beijando o nariz. Contava histórias de rir com voz de choro, sentia desejo ao me ver citar Gullar, cantava Maysa quando tomava seu banho quente e esfumaçado.

Ela era louca. Me mordia os mamilos, me puxava os cabelos, me lambia a alma até sair a casca e só restar a essência. Era áspera no trato com o sexo, era macia na forma de sentir a morte, era sem sentido e sem encaixe. Nem côncavo nem convexo, só confusão e demência transformados em luz. Amor.

Ela era vital. Generosa e faceira, lindamente brejeira, catando morangos no pomar do Luiz. Perdia as sandálias, queria subir na mangueira com a volúpia dos náufragos em busca de um tronco que bóie. Ao mostrar sua ferida no pé, riu de meu pé chato. Como criança sapeca me sujou de terra, me empurrou pro mato, disse que me amava.

Ela era a obra mais perfeita que uma noite de sono pôde conceber.

Mas sonhos terminam com o raiar do dia sobre o celular que toca, despertando os trabalhadores do Brasil.
Vambora, vambora. Tá na hora, vambora, vambora!


Ela era assim.

E eu sou assado.

MAIS UMA HOMENAGEM...

sábado, 5 de abril de 2008 às 11:37
O delicioso blog COTIDIANO ATIVO, escrito pela Fernanda Miranda, indicou o SINOPSE INACABADA ao selo ESTE BLOG É UMA JÓIA. Como sou eu quem escreve o blog, sinto-me um verdadeiro ourives da neo-literatura internética, uma coisa assim muito chique... Aceito docemente constrangido e deveras envaidecido. Afinal, carinho não se recusa...

Indico este selo agora ao blog IPSIS LITTERIS, que merece sua visita por ser inteligente, original, descompromissado com a mesmice e a falta de assunto... O Grijó merece!

COTIDIANO ATIVO

http://www.cotidianoativobyfer.blogspot.com/

IPSIS LITTERIS

http://mesmasletras.blogspot.com/

O MUNDO É DOS ECLÉTICOS

quarta-feira, 2 de abril de 2008 às 20:15
Sim, o mundo é de quem gosta de chocolate e, ainda assim, não dispensa uma salada de rabanete. Herdarão o reino dos céus os que lêem Rhonda Byrne e seu segredo com o mesmo entusiasmo de quem saboreia Proust. Só sobreviverão os que colocam Zezé di Camargo & Luciano e The Strokes na mesma playlist do Media Player.

Para o eclético, qualquer hora é hora e qualquer lugar é lugar. É o bissexual da cultura, o indeciso dos sabores. O eclético se recusa ficar compartimentado, segregado do resto do mundo. O eclético quer é farra.

O eclético adiciona todo mundo com quem simpatizar no Orkut, não só quem ele conhece pessoalmente. O eclético come picanha sangrando, mas não recusa um strogonoff de soja no capricho. O eclético toma vinho, cerveja, suco e Pepsi Twist, tudo sem exagero e na hora e clima corretos.


Um eclético fica menos tempo desempregado, pois aceita novas experiências com mais facilidade. O eclético sabe que nem todo mundo que é filiado ao PV quer o bem da natureza e nem todo mundo que milita no DEM é um enviado de belzebu para destruir a vida na Terra.

Ecléticos surpreendem. Chegam de cabelo espetado pintado de pink e, numa boa, cantam uma Bossa Nova daquelas bem calminhas, só pra contrariar. Ecléticos confundem suas namoradas ao sugerirem programas díspares como idas a museus, um show do Jeito Moleque ou uma corrida naquela pista de kart perto do shopping. Só os ecléticos têm paciência para assistir o horário político enquanto esperam a novela das oito começar, finalmente, às nove e meia.

Na fila da locadora há uma menina com vários dvd’s nas mãos: um clássico em preto e branco, um pacote com uma temporada inteira dos Simpsons e o último lançamento de Woody Allen. Com certeza se trata de mais uma feliz e eclética cinéfila que vai passar no Wal-Mart antes de ir pra casa pra comprar pipoca e calda de chocolate pra colocar por cima...



Ecléticos sofrem menos. Ecléticos vivem mais e ficam menos doentes. Ecléticos são mais interessantes e mais bonitos, pois estão sempre mudando o cabelo e experimentando novos estilos. Ecléticos são mais legais e sempre têm assuntos novos para aquele bate papo na fila do metrô. Ecletize-se você também.




Está lançada a nova panacéia da Era de Aquário.

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