
A vida sorri mais para quem tem mais garrafa pra vender.
Quem tem mais a oferecer para os outros costuma ser mais bem tratado em sua passagem por este planeta. Os mais bonitos são mais solicitados, os mais bem sucedidos tem mais admiradores (e bajuladores também), os de personalidade mais forte costumam dominar os de temperamento mais dócil e magnetizar olhares por onde passam... A lei do mais forte não se aplica só na selva.
Quem pode mais chora menos, é assim que é.
Quantos de nós já não passaram pela incômoda situação de se perceberem impotentes diante de determinada situação onde se exige mais de nós do que temos para dar?
Na novela O Salvador da Pátria, de Lauro César Muniz, o inesquecível personagem Sassá Mutema, interpretado brilhantemente por Lima Duarte, era um bóia fria analfabeto, de dentes mal cuidados e roupas surradas, apaixonado pela linda e loura professora Clotilde, que ele e qualquer pessoa de bom senso julgariam inatingível para um homem de sua condição física e social.
Apesar disso ele investiu em seu amor. Numa cena lindíssima, declarou-se a ela de modo tocante. Disse textualmente que nada tinha a lhe oferecer, pois nada tinha a não ser a sua própria vida para viver. Mas que ela, a vida que Deus havia lhe dado, a partir daquele momento era dela. Ela que fizesse o que quisesse com o presente.
Capítulos mais tarde as coisas se arranjaram e Sassá conquistou a jovem professora interpretada por Maitê Proença.

Mas e na novela da vida real? Quem nunca se deu conta de que não tinha o suficiente para oferecer a alguém? Não era belo o suficiente para causar o interesse naquela menina especial, não tinha o mesmo apreço por aquele amigo que viva lhe procurando em vão ou não se julgava adulto o suficiente para absorver todas as responsabilidades da faculdade recém começada?
Nem sempre temos garrafas o suficiente.
Nem sempre somos o que esperam de nós.
Muitas vezes nos ferimos ao perceber o desinteresse de alguém diante de nossas mãos estendidas. Quem nunca chorou ao lado do telefone, esperando ele tocar? Quem nunca se sentiu com menos do que deveria ter?
PS – Esse texto parece meio deprê, não é? Pois é... E era mesmo. Mas enquanto eu escrevia o parágrafo anterior o telefone tocou e minhas mãos estendidas receberam um belo e inesperado afago de quem eu amo. Não deu nem pra terminar o texto. A vida surpreende!




