O QUE HÁ EM NOSSAS MESAS?

segunda-feira, 31 de março de 2008 às 00:28
Minha mesa de trabalho é um depósito de porcarias necessárias. É uma agenda informal, onde coloco tudo o que não posso me esquecer de fazer, pagar, guardar, enviar, reciclar, tomar, etc. É bagunçada de modo lógico, já que encontro tudo. Vou dividir com vocês o que repousa sobre ela de modo marioprateano:

- Computador, óbvio. Parcelado nas Pernambucanas em doze suaves prestações. Estou na sexta, todas pagas em dia, acreditem.

- Uma caixa de Especialidades Nestlé vazia. Sou louco por caixas, guardo tudo em caixas que eu mesmo forro com papel de presente, recortes de revista, etc. Uma coisa meio hippie.

- Uma sacola plástica azul vazia. Sacolas plásticas são outra mania que rendem uma crônica inteira.

- Um pacote de chá verde Yamamotoyama pela metade, fechado com um pregador de roupa. Está sobre a mesa de trabalho para que não me esqueça de levar para o trabalho e, assim, tomar o dia todo. Preciso emagrecer urgentemente e chá verde ajuda muito. Anotem essa dica.
*


- Meu molho de chaves, com um chaveiro em forma de abridor de garrafas... Bandeira de alcoólatra, né?

- Meus extratos do FGTS que a Caixa me manda religiosamente pra me lembrar de que tenho uns caraminguás lá me esperando.

- Um cd gravado pela minha irmã que contém Biquíni Cavadão, Cidade Negra, Skank, Kid Abelha, Titãs, Zeca Baleiro, Jota Quest y otras cositas más...

- Dois cd’s virgens e um dvd igualmente intacto para que eu faça backup de meus arquivos o mais rápido possível, antes que a tragédia que ocorreu com meu antigo PC se repita e eu me sinta tentado a tomar formicida.

- Três amostras grátis de perfume. Dois Noir de Christian Lacroix e um de Jean Paul Gaultier. Pra colocar na bolsa.

- Uma caixa de cd vazia (que não sei como veio parar aqui).

- Uma cotação de preços que minha mãe por telefone nos pet-shops do bairro fez para comprarmos uma coleira anti-pulgas para Ringo Starr. Não, ele não tem pulgas. Teve carrapato uma vez. É prevenção.



- A fatura do UOL paga de março.

- A oração de Santa Rita de Cássia. Ela é poderosa!

- Um comprovante de depósito de alguém no Banco Nacional, que até já fechou, de 1995. Deve ser da minha mãe.

- Um cardápio da Pizzaria Fornalha. Quando sobrar dinheiro vou pedir uma Gorgonzola delivery.

- O extrato de fevereiro do Banco Real, que ainda me trata como cliente apesar de não movimentar a conta há dois anos.

- Faturas do Extra e do Unicard.

- O IPTU que eu sempre pago no final do ano, com o décimo terceiro. Com uma pancada de juros e ameaças veladas de leiloarem a casa.

- Dois disquetes que perderam a utilidade, já que hoje meu computador não trabalha mais com tecnologias ultrapassadas.

- Um cardápio do Zappas, doceria que me tira o sono com coisas como mil folhas de morango, torta mousse de avelã e nozes, bolo de profiteroles e crostata de morangos com creme belga. Por que eu não jogo fora essas coisas? Um dia eu consigo viver de luz!

- Um livro do Mario Prata (Schifaizfavoire), de quem copiei a idéia desta crônica, e outro do Santiago Nazarian (Feriado de Mim Mesmo). Recomendo os dois.

- Dois prendedores de papel.

- Grampeador que eu nunca uso.

- Pen drive, aparelho fantástico que revolucionou minha vida.

- “Acabou a ração do Ringo Starr e o papel higiênico”. Bilhete de mamãe. Como o cotidiano de qualquer ser humano é ridículo!



- Mini panela de barro que minha irmã trouxe de Vitória como souvenir. Dentro uma receita de moqueca capixaba ainda não testada.

- Dois bilhetes de loteria federal. Não foi dessa vez.

- Uma não-agenda de telefones. Digo que é uma não-agenda por que se trata de um caderno em que minha mãe coloca os telefones numa ordem caótica, que não respeita ordem alfabética ou lógica de parentesco. Só ela acha o número de quem quer que seja. Eu só uso a agenda do celular pra me defender dessa maluquice.

- A lista telefônica, que só uso para pegar telefones de lanchonetes delivery.

- Cadernos de anotações e rabiscos. Adoro rabiscar.

- Minhas duas disqueteiras cheias de cd’s e dvd’s. Quase todos gravados por mim. Eu colaboro com a pirataria, joguem-me no cárcere.

- Muitas canetas que não funcionam. Umas duas que ainda escrevem.

- O único aparelho de telefone da casa. Quando mamãe resolve falar ao telefone, não tem crônica nova para o blog nem joguinho de computador. Aproveito esses momentos (ou horas) para fazer a barba, cortar a unha, ver TV...

- Uma calculadora que quase não tem uso, pois faço cálculos no computador. Só serve para o supermercado.

O que repousa em sua mesa de trabalho? Você é mais organizado que eu?

Duvido.

A DIFERENÇA QUE APROXIMA

domingo, 30 de março de 2008 às 00:01
Não há nada mais clichê que dizer que os opostos se atraem. Nem em texto de novela mexicana essa frase é tolerável nos dias de hoje. Essa é uma verdade inquestionável, comprovada pela física e pelas mulheres altas que dão mole para baixinhos.
*

Mas há uma sensível diferença entre as tantas diferenças nossas de cada dia. Há as que aproximam e as que afastam. As que dão tesão e as que dão asco. As perfumadas e as sebosas.

Pra um cara ansioso como eu, nada atrai mais do que ver aquela pessoa zen, tranqüila, que não sente angústia nem rói a unha até sangrar. Fico fascinado ao ver pessoas que tem paciência com crianças mal-educadas, que se permitem tomar um chimarrão no parque ao cair da tarde, que gostam do silêncio. Invejo, invejo muito. E me sinto atraído por gente assim, seja pra namorar ou simplesmente ficar perto, conversar.

Pra um cara sensível como eu, nada mais desagradável que perceber que tem muita gente que não está nem aí para os sentimentos dos outros. Pisa no pescoço do próximo sem culpa e ainda tripudia. Minimiza suas falhas e maximiza os deslizes dos outros, achando que seu umbigo é a fronteira que demarca tudo o que há de bom no mundo.


As relações humanas não são regidas pelas leis da física, nem pela constituição brasileira e menos ainda pela moral decadente da classe média empedernida. As relações humanas são regidas pelo coração. Pelas vontades. Pelos limites de cada um. E aí é que reside a brecha que permite aos diferentes se aproximarem.

Mas existem diferenças impossíveis de serem ignoradas, nem pelo Dalai Lama.

O amor é cego, mas conserva tato, audição e bom senso, graças a Deus.

MALDITA PÁSCOA

quarta-feira, 26 de março de 2008 às 00:09

Tirei essa imagem do UMBIGO, que é um blog que tem je ne sais quoi.
http://www.regardlalumiere.blogspot.com/

Não sei se o título dessa crônica me coloca como herege automaticamente, sem direito a recurso. Mas arrisco.

Por que diabos inventaram que páscoa tem de ter chocolate? Isso acaba com as boas intenções de qualquer gordinho. Nessa época pode colocar o Dráuzio Varela no Fantástico mostrando obesos mortos com todas as artérias entupidas à vontade que eu não largo meus queridos bombons.

Adoro. Principalmente os meio-amargos e os brancos. Chocolate ao leite enjoa fácil. Aliás, o cardápio da páscoa é estranho. Chocolate não combina com peixe. Chocolate combina com prazer, com deleite, com rede na varanda, com beijo na boca, com tardes de dolce far niente.

Me acabei no feriado e comi tudo o que meu pequeno salário pôde comprar. Ainda de ressaca, quero falar mais de comida. Comida mexicana, pra ser mais preciso. Afinal, porre se cura com bebedeira.



Minha experiência com a comida de nossos irmãos do norte começou em 2002, quando fui trabalhar na finada Vésper. Fomos todos do escritório num restaurante que estava fazendo sucesso na cidade devido à inusitada combinação de sabores, texturas e ingredientes.

Comer numa mesma refeição algo que levasse milho, abacate, feijão, queijo, carne, pimenta e afins, era algo que jamais havia me passado pela cabeça. Loucura. Insensatez. Devia dar gases até no cérebro.

Foi amor à primeira mordida.

Adorei tudo. A Cerveza Sol, o taco de massa crocante e recheio de carne picante e macia e queijo derretendo, a guacamole que veio de couvert, a enchillada fumegante e apetitosa...

Hoje já sei que muito do que comi lá e aprendi a fazer em casa anos depois não passa de culinária Tex-Mex, com influências e referências texanas muito presentes. Mas a reverência ao sabor dos pratos mexicanos não fica invalidada só por isso. Se você não conhece, vale a pena.

Só não corro pra cozinha pra providenciar algo nesse sentido por conta da maldita páscoa, seu maldito peixe e seu mais ainda maldito chocolate. Bom, o chocolate é de origem mexicana, sabiam?



Volto à ressaca, pois.

O ANO EM QUE PROCLAMAMOS A REPÚBLICA

quinta-feira, 20 de março de 2008 às 15:28
Ano 2000.

Eu estava no segundo ano de Letras numa faculdade pública no período noturno, indo direto para o trabalho onde ficava até às sete da manhã. Eu atendia os telefonemas numa agência de moto-táxi do centro da cidade e com esse dinheiro, mais uma bolsa-auxílio que recebia da faculdade, sustentava minha casa. Estava cansado, esgotado, isolado dos amigos e sem perspectiva de vida. Meu pai morrera meses antes e eu ainda não superara o trauma.

No meio daquela correria em plena madrugada eu planejava meu futuro imediato. Queria ir embora do Brasil. Atendia os ansiosos passageiros e marcava as corridas. Nos intervalos entre uma chamada e outra, pensava para onde deveria ir. Onde será que a felicidade e a independência moram?


Inglaterra! Mas não falo inglês. Itália! Afinal eu estava fazendo Letras com habilitação em língua italiana... Bom, mas se o problema fosse o idioma, era melhor ir para a Espanha, já que eu dominava o idioma de Cervantes desde a adolescência.

Comecei a dividir esses questionamentos com um motoqueiro mais chegado. Ele fumava uma maconha lascada, mas dava bons conselhos de vez em quando. Um belo dia veio com uma história de um vizinho de sua sogra que fora para Portugal e ficara rico.

Portugal. Porta de entrada da União Européia. Poderia me estabelecer lá e, depois, me perder dentro do continente. Trabalhar lavando pratos e fazer um curso de inglês britânico, mandar uma grana pra casa. Depois Londres e a independência financeira e cultural.

O cara se animou. Começou a falar de ir também. A gente poderia dividir um apartamento, em dois sempre se gasta menos e a solidão é menor. Um ombro pra desabafar é sempre bacana.

Um gaúcho muito maluco que também trabalhava conosco começou a se animar com a história. Também queria ir. A coisa começou a ficar séria e fomos nos unindo em torno desse projeto comum. Ficamos muito amigos, praticamente irmãos os três.

Falávamos de nosso Projeto Europa diariamente. Marcamos janeiro de 2001 como sendo a data do embarque. Comecei a procurar informações na Internet sobre locais para ficar, empregos para ilegais, etc. As poltronas do avião nos dariam felicidade, riqueza, esperança. Ilusão que inebriava.
*

O gaúcho fazia um bico durante o dia num laboratório e falou de nossas intenções com uma enfermeira que trabalhava lá. Ela também embarcou na loucura. Disse que seria a mulher da casa, faria nossa comida, trabalharia muito e melhoraria a vida dos filhos. Começamos a nos falar por telefone e já éramos quatro.

O quinto elemento era outro enfermeiro que o gaúcho também conhecia de priscas eras. Gostou da idéia e disse que tinha duas amigas em Lisboa que poderiam morar conosco. Seríamos sete, mais dinheiro sobrando. A coisa estava séria.

Reservamos as passagens por telefone e começamos a juntar dinheiro. Os motoqueiros venderiam as motos e o enfermeiro venderia seu carro. Iríamos como uma família, unidos desde aqui para a nossa república.

Foi bonito. Durante uns sete meses tratamos de tudo com entusiasmo. Foi uma relação de respeito, amizade e auto-ajuda entre cinco pessoas que queriam dar um pé no Brasil e em sua injustiça, no tratamento desigual que ele dá a seus filhos. Muitas vezes choramos um no colo do outro, lamentando tanta infelicidade, tanta luta em vão.

Mas não viajamos. A república proclamada não se concretizou. Nós, os farroupilhas unidos de modo quase que mágico, seguimos cada um por um caminho diferente. No Brasil.

Eu, um Garibaldi perdido no tempo, não entendi. Assim como não planejei viajar com mais quatro pessoas, também não planejei que essa união se desfizesse antes de se consumar de fato. Foi um processo natural, orgânico mesmo. Como nasceu, morreu. Sem dor e sem traumas.

Era como se essa união pré-viagem fosse o suficiente pra gente agüentar o tranco mais um pouco. Fortalecemos-nos e seguimos na mesma. Ao dar as mãos uns aos outros, estávamos tratando as feridas que eram o motor que nos empurrava para fora daqui.

Outro dia vi o gaúcho no supermercado. Casado, com uma filha linda. Eu estava com minha sobrinha. Demos um abraço bem forte e ele me disse que nunca se esqueceria daquela época bonita, de desilusão e amor fraternal.

E eu?

Acham que me esqueço?

VOCÊ É CHATO?

quarta-feira, 19 de março de 2008 às 18:47

Eu sou. Quer dizer, sou chato em alguns aspectos da vida. Em outros me considero um cara extremamente maleável, adaptável.

Outro dia ouvi de um amigo que eu não deveria insistir mais em um determinado assunto, pois não conseguiria nada vencendo os outros pelo cansaço. Eu só conseguiria ficar mais chato.

Aquilo me doeu muito, pois não me considerava chato. Ainda não me considero. Mas o fato é que a chatice pode ser algo muito relativo. É um conceito flexível demais, que depende de uma série de idiossincrasias de quem está julgando o outro.

Esse amigo mesmo diversas vezes ligou pra mim de madrugada e praticamente falou apenas de si e de seus problemas. Nunca o considerei chato por conta disso, gostava e ainda gosto muito de falar com ele e não me importava com isso. Ele não teve a mesma impressão de mim e de minhas pequenas cobranças por um papo e atenção, infelizmente.

A vida de cada um influencia na forma como julgamos o outro. Num dia de bode, uma pessoa cantando ao seu lado soa irritante. Num dia em que tudo dá certo, a mesma pessoa pode lhe parecer alegre e iluminada pela luz divina. A mesma luz que banhou seu dia.

Eu sou um cara tímido, fechado para quem não conheço direito. Depois me solto. Garanto que muita gente não se aproxima de mim achando que sou um mala. Assim como já deixei amores e amizades escaparem por pré-julgar algumas pessoas como sendo chatas.

Perfeccionismo pode ser chatice. Petismo já foi sinônimo de chatice, hoje é de resistência a críticas. Gosto refinado é chatice pra uns, inteligência e capacidade de seleção para outros. Filmes europeus são chatos e geniais.

Tenho meu grau de chatice em níveis normais, perfeitamente toleráveis em nossa sociedade. Gosto de muita gente chata e não as excluo de minha vida, não as chuto quando me enchem os pacovas além da conta. Chatos são pessoas com coração.

Essa foi piegas, mas verdadeira.

GELE A BOCA E AQUEÇA O CORAÇÃO

segunda-feira, 17 de março de 2008 às 20:02

Poucas coisas na vida são mais gostosas que um sorvete. Concorda?

E dessa vez não se trata de nostalgia infantil, não. O gelado nunca abandonou meus hábitos alimentares e segue sendo uma excelente pedida para todas as horas, no inverno ou no verão.

Depois do almoço, pistache. No parque, embaixo do quiosque, napolitano é a pedida. Na areia da praia, completamente à milanesa, é só gritar o vendedor e pedir o picolé de limão. Como complemento para um bolo de baunilha feito pela mamãe, uma cremosa e amarelinha bola de sorvete de creme.

E os milkshakes? Leite, sorvete de creme e Ovomaltine batidos no liquidificador me levam à loucura e alimentam por um bom tempo. Com Coca-Cola faz-se a vaca preta. A minha especialidade é bater leite, sorvete de creme e frutas diversas picadinhas. Pode ser banana, morango, mamão, maçã... Até babei aqui no teclado.


Sorvete é saúde. Feito de leite e frutas, ele é um alimento divertido e nutritivo. Não brigue com seu filho quando ele insistir com aquele pote de litro da Kibon embaixo do braço. É muito mais saudável que os famigerados refrigerantes e salgadinhos.

Sorvete é divertido. Sempre acaba em farra, brincadeira. Se for na casquinha, sempre nos lambuzamos no final. É um deleite lamber os dedos sujos de calda enquanto comemos aquele biju crocante.

Sorvete é família. Quer programa mais inocente para uma tarde de domingo que uma visita à sorveteria? Lá você encontra casais de namorados, idosos, famílias inteiras degustando e estreitando laços frouxos pela correria da semana. É gente que está voltando da missa, gente que está indo para o estádio, outros sem camisa buscando um refresco no calor do Brasil. Vale a pena.

Sorvete é surpresa. Ao colocar-se em frente ao balcão de uma boa sorveteria, a dúvida é atroz. O que pedir? O que seria Chocomenta Especial? E de quê seria feito o sorvete Céu Azul? Extrato de nuvens? Aqui em Rio Preto, na Requinte ou na Nonna, sempre descubro novos sabores e diferentes combinações. Frutas Vermelhas, Cream Cheese (isso mesmo, sorvete de queijo), Danoninho, Especial Italiano, Zabaione, bah... Tô passando mal, já.




Em resumo: Sorvete é tudo de bom.

Gela a boca e aquece o coração. Experimente.

VOU CONTAR PARA O SEU PAI QUE VOCÊ NAMORA

domingo, 16 de março de 2008 às 22:05
Esse ano está sendo muito ruim pra mim. Amigos me chutaram, amores estão raros, o trabalho está pesado, a grana curta, os sonhos mofados, como os morangos de Caio Fernando Abreu...

A minha nostalgia, que já é atávica, está ainda mais aguçada, pois. Quando o presente não dá esperanças, a gente se socorre do passado pra não se jogar do primeiro viaduto que encontrar. Aí me lembrei disso e resolvi escrever.

Que ano marcante para todos nós. 1994.

Morreu Ayrton Senna, o Brasil campeão do mundo no basquete e no futebol. Eleição pra presidente, todo mundo achava que agora era Lula! O dinheiro tinha mudado, a inflação morria.



Eu tinha treze anos. Estava em crise, como todo rapazinho dessa idade. E como agora, beirando os trinta.

Terceira mudança de colégio em dois anos, problemas seríssimos de grana e de relacionamento em casa, muitos choques familiares. Estava me adaptando a uma cidade nova, recém saído de São Paulo, trabalhando (comecei a trabalhar fora com onze anos) muito e era um poço de carência afetiva.

Não tinha muitos amigos. Sempre fui reservado e em colégio novo, então... Demorei até engrenar. Mas logo me apaixonei por uma menina linda, cabelos cacheados e pretos, pele muito alva e olhos de jabuticaba.

Flávia era o nome dela. Não tive coragem de falar nada, mas acho que me fiz entender em algumas oportunidades, através de demonstrações de carinho, olhares perdidos... Emprestava meu walkman, buscava balas na cantina e entregava, na esperança que ela entendesse as mensagens que vinham no papel celofane.




No caminho pra casa, havia algumas amoreiras na calçada do campinho de futebol do bairro. Nunca tinha dado muita bola pra elas até que, em Setembro, elas ficaram carregadíssimas. A copa era baixa, dava pra pegar as frutas só esticando o braço.

Causava-me espanto o fato de ninguém dar muita bola para as amoras maduras e doces ali, disponíveis, suculentas. Eu, caipira da capital, acostumado a só ver fruta com etiqueta no Carrefour, me deslumbrava com aquilo.

E comia o quanto conseguia.




Sei que falei dessas benditas amoras aqui no blog, mas esqueci de contar uma coisa. Um dia, sentado sobre os livros na calçada, comendo muitas amoras bem pretas, vi a Flávia passando do outro lado da calçada. Linda, com um moletom branco e calça jeans, sorrindo muito e luminosa.

Levei um susto ao vê-la abraçando e beijando na boca um cara que surgiu correndo. A amora ficou amarga, rançosa... Ela nunca soube que me feriu tanto. E eu nunca imaginava que me lembraria disso para o resto da vida.

Depois da curva da estrada tem um pé de araçá.

FRESCURA FAZ BEM

sexta-feira, 14 de março de 2008 às 18:12
A vida sem nenhuma cerimônia se torna insuportável.

Frescurinhas do bem são necessárias para azeitar qualquer relacionamento, seja ele fraternal ou carnal, digamos assim.

Um café na cama faz toda a diferença. Nada muito elaborado. Pão quentinho, manteiga de qualidade, café com leite e um queijinho. Nada mais simples e gostoso pra começar o dia de bom humor e alto astral. É um bálsamo pra quem serve e pra quem recebe esse mimo. Uma flor na bandeja e um suco feito na hora, então... Covardia.

Ninguém ficará mais pobre ou se atrasará de modo irremediável se, ao voltar do trabalho, passar numa padaria e comprar um chocolate para o filho comer após o jantar. Ele se sentirá especial, querido. Afinal, depois de um dia estressante de trabalho, o papai ainda teve o carinho de se lembrar de mim.

Arrumar a casa e espargir alguma essência diferente no ar. Colocar algumas velas no banheiro e preparar um banho romântico, com incenso e sais de banho. E isso pode ser feito até mesmo no chuveiro, não tem desculpa!

Aprenda uma boa massagem e faça no seu pai quando ele estiver nervoso com tantas contas pra pagar. Especialmente quando essa conta for a do telefone onde você ficou pendurada horas com aquele cara. Um creme hidratante, muito carinho e ele nem vai se lembrar de que terá de pagar aquela baba para a companhia telefônica.

Um jantarzinho especial não é necessariamente caro. Use a sua melhor louça. Uma toalha simples, branca e limpa. Um macarrão penne cozido em água e sal, molho de tomates frescos bem temperado. Queijo parmesão ralado, um bom vinho tinto. Uma sobremesa leve, boa música. Sua namorada vai ficar encantada com seus dotes.



Frescura faz bem.

O profeta Gentileza estava à frente do seu tempo.

A FELICIDADE NÃO EXISTE

quinta-feira, 13 de março de 2008 às 00:41
O que existe é uma seqüência de momentos felizes, sejam eles mais esparsos, mais seguidos...

Eu sou feliz quando ganho um desenho do meu sobrinho. Quando como um bom combinado de sushi e sashimi ou um prosaico pão com queijo prato. Ou quando meu cachorro me acorda com lambidas nos pés.

Sou feliz quando posso cantar no chuveiro. Quando algum amigo antigo dos tempos de colégio me encontra no Orkut e a gente relembra juntos o quanto éramos inocentes, infantis, humanos. Ou quando o meu time ganha bonito, de preferência com um golaço de falta do Rogério Ceni.



Um momento feliz surge das maneiras mais inusitadas. E é sempre marcante.

Outro dia fiz uma boa ação que me rendeu um momento desses. Um dos meus alunos é alérgico à lactose, o que significa dizer que, para ele, leite e derivados são como veneno. Na merenda, o coitadinho só toma chá mate e biscoito de água e sal.

Via aquele lanche minguado e morria de pena. Passei num Wal-Mart da vida e trouxe um Ades sabor chocolate pra ele. Geladinho, cremoso, com cacau suficiente pra fazer um ovo de páscoa inteiro. E isento de lactose!

A cara que ele fez... Meu Deus! Os olhinhos faiscavam.

Tomou duas canecas. Garanto que os biscoitos até ganharam mais sabor. Me agradeceu. Ganhei beijo na bochecha, abraço apertado e um novo amigo. E mais um momento feliz pra guardar na memória e no coração.

Dois dias mais tarde, ouvi coisas duríssimas de uma pessoa que eu chamo de irmão. Perdi o chão, chorei, me descabelei. Pra piorar, passei por uma crise de estafa no trabalho e quase pirei. Um dia pra esquecer.

A graça da vida é essa. Um dia de Mercedes Benz e fraque. No outro, estamos catando papelão e comendo restos com os ratos, imundos. Nada é definitivo e os melhores amigos de hoje podem cuspir na sua cara amanhã. Um inimigo mortal pode te estender a mão e uma bandeira branca.


A felicidade não existe.

Tudo é relativo. Coca-Cola não é Pepsi.

AS COISAS COMO SÃO

segunda-feira, 10 de março de 2008 às 23:08

O título desta crônica é idêntico ao slogan da Sprite Zero, reparou? Mas não tem nada a ver, relaxe.

Escolhi começar com essa frase pois ela está impressa em diferentes aspectos de nosso cotidiano. As pessoas mentem, falseiam, amam, se entregam, deixam rolar, tudo à sua revelia e das maneiras mais inusitadas possíveis...

Aquele bilhete da Mega Sena que você comprou vai acumular, a celulite de sua perna não derreterá por milagre e é mais fácil seu cunhado ser atingido por um raio no deserto do Saara do que ele pagar aqueles R$500,00 que você lhe emprestou.

Essas são as coisas exatamente como são.

A gente sempre acredita num amor de sonho, em algo parecido com aquela fantasia do cinema americano. Por mais choques de realidade que tomemos, sempre achamos que um saco de dinheiro vai cair sobre nossas cabeças, do nada! Nossas feridas secarão, nossos dentes clarearão com aquela pasta do comercial e seremos todos felizes para sempre.

É bem melhor viver assim. Menos dolorido, mais saboroso.

Saber que as coisas são como são não dá vantagem nenhuma pra ninguém na corrida pela felicidade. Pelo contrário, só empata. A menina sempre te parecerá mais feia, a cerveja mais quente, o amigo meio falso...

Deixemos para nos decepcionar quando for inevitável.

As coisas são como a gente acredita que sejam. E foda-se.

DIA INTERNACIONAL DA ESFINGE

sábado, 8 de março de 2008 às 16:31


Hoje é o Dia Internacional da Mulher, essa esfinge que conhecemos em seus mais diferentes papéis: amante, mãe, tia, professora, patroa, namorada, doutora, mendiga, enfim.

Em tempos de Michelle Bachelet no Chile, Cristina Kirchner na Argentina e Hillary Clinton tentando tudo nos Estados Unidos, pensar a mulher como sendo algo mais que uma mera consumidora voraz de cremes e sapatos chega a ser algo passé, atrasado, coisas dos anos setenta.

Já tivemos Luiza Erundina, Marta Suplicy, Benedita da Silva, Yeda Crusius, Zélia Cardoso de Mello, Dilma Roussef, entre tantas outras mulheres de direita e de esquerda que foram protagonistas em nossa política. Aliás, fomos governados por uma mulher muito antes de chilenos e argentinos. Ou a Princesa Isabel não era regente e herdeira do trono brasileiro quando assinou a Lei Áurea?

Mas, apesar de tantas conquistas e da merecida igualdade que pretendem conseguir a cada dia mais, a mulherada ainda insiste com coisas que já fazem parte do passado.

Revistas femininas, por exemplo. Não me convenço de que uma mulher se torne melhor assinando Cláudia, Nova, Criativa, etc.

Acabo de ler na Elle que uma repórter se submeteu a um teste inusitado em busca de uma boa matéria: fazer sexo diariamente com seu marido por um mês, sem falhar.

Não li a reportagem toda, mas lá pelo sexto dia ela já estava toda dolorida.


Mulheres, pelo amor de Deus. Até as crianças já sabem que em se tratando de sexo, quantidade e qualidade são fatores que não caminham juntos na maioria das vezes. Quem pensa assim é homem chauvinista do século passado, que não evoluiu nem caiu na real.

Leiam mais livros, como os de Drummond, Pablo Neruda, Cecília Meireles... Entrem em bons sites, consumam revistas de interesse geral. Sejam mais plurais. Mais humanas e menos femininas.

Garanto que doloridas vocês não ficarão.

FOI BONITA A FESTA, PÁ!

sexta-feira, 7 de março de 2008 às 00:00
Portugal deve ser mesmo lindo.

Sim, eles nos colonizaram de modo predatório. Roubaram nosso ouro, escravizaram nossos índios, maltrataram nossas matas... Mas trata-se de um povo fascinante. Assim como o Japão do pós-guerra, Portugal era um pedacinho de terra com grande economia e mentes brilhantes, que navegaram o mundo.

Hoje são caseiros. Mas eles têm bons motivos para não sair de lá.



O queijo da Serra, o bacalhau com batatas ao murro, os doces de gemas. Os montes cobertos de verde, o Atlântico beijando o litoral, o Tejo riscando o território. As videiras, as ruas estreitas com varais sicilianos, os castelos.

Nunca vi ninguém que foi pra lá falar mal. Bom, meu primo falou mal. Mas imigrante ilegal não conta.

O fato é que muito do meu interesse por Portugal surgiu ao ouvir TANTO MAR, do Chico Buarque.

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Em plena adolescência, Chico não era o tipo de artista que mais freqüentava meu toca-fitas. Mas, numa fita Basf fedorenta emprestada de um amigo, encontrei essa música. E encontrei Portugal.

Na minha infância convivi com uma família gigantesca de portugueses e descendentes. Eles eram animados, brigavam muito e a comida era farta e deliciosa.

Ah, os bolinhos de bacalhau da dona Adélia! Rendem uma crônica sozinhos.

Seu Joaquim, o marido dela, era adoravelmente briguento. Tinha um bar no começo da rua, daqueles bem paulistanos, com ovos coloridos e torresminho na estufa. Ia lá desde pequeno, buscar uma Crush para o almoço.

Todos sabiam que ele era boa pessoa, mas sempre carregava aquele ar sisudo, grave. Anos mais tarde descobri, lendo Mario Prata, que portugueses são mesmo melancólicos, gostam de sofrer.


Ouça um fado e entenderá a alma portuguesa.

Sofrida, mas bonita.

GOSTO TAMBÉM SE DISCUTE

terça-feira, 4 de março de 2008 às 20:40

Meu pai era a única pessoa que conheci em minha vida que gostava, ao mesmo tempo, de ABBA, Tião Carreiro e Pardinho, Nat King Cole e Kenny Rogers.

O ABBA era o que eu mais estranhava. Em plena década de 1990, já era voz corrente o gosto que os homossexuais tinham pela banda sueca. Algumas vezes me perguntei se meu velho pai teria mordido a fronha por aí, trazendo a trilha sonora desses momentos para casa.

Ele ouvia e curtia o som. HONEY HONEY era um hit lá de casa:


Honey honey, how you thrill me, ah-hah, honey honey
Honey honey, nearly kill me, ah-hah, honey honey
I'd heard about you before
I wanted to know some more
And now I know what they mean, you're a love machine
Oh, you make me dizzy

Ele ficou muito chocado ao saber que aqueles seus discos de vinil tão preciosos eram ícones da cultura gay. Chocado e revoltado.

Machista de marca maior, ele parou de ouvir os vinis de Sérgio Reis quando ele entrou para o elenco de PANTANAL. Mamãe achou muita ignorância:

- Que besteira, ele já fez uma novela antes e você continuou comprando os discos.
- Mas faz muito tempo! Não vou mais ouvir esse fresco.



Meu pai morreu em 1999. Ao chegar do outro lado, deve ter visto que frescuras e pederastias não eram motivo para ninguém ser barrado por São Pedro. Deve ter aprendido a lição e, a essa altura, ensina aos seus companheiros de nuvem os passinhos de DANCING QUEEN.

Também sou meio assim. Eclético e fã de músicas de gosto duvidoso e bandas indie ao mesmo tempo. Ouço Vanessa da Mata, Vanguart, Arctic Monkeys, Caetano Veloso e The Beatles com a mesma naturalidade com a qual chacoalho o esqueleto quando Dudu França canta GRILO NA CUCA.

E um bom ABBA de vez em quando, que já virou tradição de família.

AINDA SOBRE O FATO DE SER HOMEM

domingo, 2 de março de 2008 às 03:43

Ainda ando com a questão da masculinidade na cabeça. Escrever sobre outra coisa agora é impossível. Sou obsessivo.

O fato é que ser homem não dá status. Não existem revistas para homens. Men’s Health e Vip falam superficialmente da masculinidade enquanto diferencial. Não se aprofundam. Bom, mas em se tratando de revistas, acho que isso também ocorre com as femininas Nova, Cláudia, Criativa, etc.

Não existe o Dia Internacional do Homem. Não recebemos flores, em caso de tragédias somos os últimos a serem resgatados e ainda levamos dedadas por conta da saúde. Ser homem não é fácil.

Se somos carinhosos, doces, gentis, somos veados e ponto. Se optamos pela safadeza, sexismo e sem-vergonhice explícita, somos machistas sem solução, seres desprezíveis e superficiais. Ô dilema!

As mulheres lutaram anos a fio por sua emancipação e, na hora de exercer suas conquistas de modo efetivo, explode o comportamento piranhuda fashion. Esse é o nome que eu dou para as antas fúteis de corredor de shopping, que sonham com Miami e a Frei Caneca, além de escolherem seus namorados pelo carro que possuem.

Os homens dominaram o mundo desde a sua criação e na hora em que as mulheres se mostraram capazes e provaram por A + B serem iguais a eles, mostraram estar perdidos. Não há uma tendência clara para o comportamento masculino moderno. Aceitamos trocar as fraldas do bebê e usar camiseta rosa, mas não sabemos o que fazer quando uma mulher chega junto com atitude e sem medo de ser feliz.

Ser homem é osso duro de roer. Essas questões pegam geral. Também vão pegar você.
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INSTINTO PATERNAL

sábado, 1 de março de 2008 às 05:14

Quem disse que não existe?

Sim, muitos pais abandonam os filhos. Sim, muitos homens não sabem amar, acarinhar, são incapazes de transmitir o que sentem. Ou não sentem. Homens são mais egoístas, mulheres são o esteio da casa.

Homem não chora, aprende-se desde criança. Homens não se dão as mãos. Homem não beija homem. Homem tem que ser forte. Saber mecânica, consertar liquidificador, trazer empadinhas da padaria. Pais são provedores, mães são heroínas.

Essa é a regra. Coca-Cola é isso aí.

Você concorda? Nunca viu uma exceção?

Trabalho com crianças num projeto social, já contei aqui no blog a minha história com um filho postiço que arrumei por lá. O fato é que a convivência diária com aqueles meninos carentes de afeto em sua maioria me forçou a entrar em contato com algo que nem todo homem consegue enxergar que tem.

Um menino de sete anos olha pra você com os olhos mais doces e o sorriso mais terno da galáxia e, num rompante, diz que queria que você fosse seu pai. Uma menina pede ajuda na tarefa escolar e, em agradecimento, lhe dá um desenho feito em folha de caderno.

Instinto paternal existe. O amor é algo que nos une.

Todos têm a capacidade de amar. Amar uma causa, uma bandeira, uma criança, a nós mesmos. Homens não são tão diferentes de mulheres.

Só falta prática.

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